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Instalação sensorial site specific Pátio dos Canhões no Museu Histórico Nacional,
no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Quinze cheiros conceituais ocupam as bocas dos canhões e uma pequena história acompanha a relação entre o objeto e o cheiro, a História e o tempo corrente. 

10/nov/2022 - 29/01/2023
Museu Histórico Nacional - Praça Marechal Âncora, s/n - Centro

Instalação artística de Josely Carvalho

Paulo Knauss 
Professor do Departamento de História da UFF
(ex diretor do Museu Histórico Nacional)

Canhões fazem parte do mundo das armas que contam histórias de guerras. A coleção de canhões do Museu Histórico Nacional sintetiza a história militar do Brasil, desde o período colonial até a Primeira Guerra Mundial.
Assim, define um modo de interpretar a construção da sociedade brasileira. 

A instalação Entre os Cheiros da História é uma criação da artista contemporânea Josely Carvalho que apresenta canhões como objetos da história pela experiência sensorial do olfato. Para a artista, os cheiros guardam “a memória de uma vivência”, estabelecendo um diálogo entre passado e presente. Propõe, portanto, um modo diferente de abordar a história pelo sabor do ar. A exposição de cheiros trata a respiração como um ato de pensamento crítico ao alcance de qualquer pessoa.

A obra artística de Josely Carvalho é conhecida por debater a condição feminina. Seu interesse pelos canhões tem  justamente  a intenção de colocar em questão as leituras da história dominadas pelo ponto de vista masculino. Os canhões de época de fina escultura e rica metalurgia são monumentos que celebram os feitos militares de homens guerreiros, mas ofuscam a lembrança da violência e do que ocorre com mulheres e crianças na guerra. Ao explorar o olfato, a artista transforma a boca do canhão em túnel do tempo. A arte de cheirar conduz, então, a histórias sensíveis do Brasil.

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Para ler ou ouvir uma pequena História do canhão e do cheiro, navegue pelo mapa do Pátio dos Canhões abaixo. 

A experiência olfativa faz acessar memórias e afetos. Aqui, conectando padrões da colonização europeia com seus resíduos que se revelam na vida política e social brasileiras.

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História tem cheiro?

Josely Carvalho (2020-2022)

Em caráter de ocupação, a instalação Entre os Cheiros da História no Pátio dos Canhões do Museu Histórico Nacional estabelece diálogos através do olfato entre a coleção de canhões e o público. Nela, desenvolvo uma obra visual para não ser vista, mas sentida.

 

O recipiente que aninha o cheiro - memória de uma vivência - não é esculpido em vidro soprado como em instalações anteriores, mas é emprestado diretamente da História, hoje acervo do museu.

 

... O ato de inspirar e expirar nos transporta a uma multiplicidade de experiências olfativas ativando a memória e as emoções. Quais cheiros poderiam nos conduzir ao encontro dos afetos vividos por aqueles que estavam por detrás dos canhões? Ou aqueles que foram mirados ou atingidos pelas bolas de canhão? Bolas de ferro, chumbo, e pedra cuja intenção era dilacerar o corpo em dor - aqueles corpos que não tiveram espaço, silêncio e tempo para imprimir seus apegos no tempo.

Vem à minha memória as bolas de canhão, frutos que crescem junto à flor perfumada abricó-de-macaco. Ambos crescem pendurados nos troncos da árvore Couroupita guianensis, considerada sagrada pelos Hindus e muito presente na paisagem carioca. Seus frutos quando abertos exalam um odor grassoso, antibacteriano e sulfúrico que me lembra à decomposição de corpos atingidos pela violência das armas...em contraste com a fragrância doce, leve e amorosa de suas flores. Será esta árvore uma metáfora para a polarização afetiva e beligerância vividas no Brasil de hoje?

No Pátio dos Canhões, me pergunto quais os segredos esquecidos na alma lisa destes objetos obsoletos... ainda símbolos do poder militar, econômico, bélico e sexual?

 

O feminino tem sido protagonista em minha obra enquanto que o masculino habita as beiradas desta pratica. O Pátio dos Canhões me remeteu a simbologia do patriarcado presente no Brasil por herança portuguesa.

 

A sexualidade ainda é vista e transmitida por muitos como a supremacia do homem sobre a mulher, o que explica os altos e recentes índices de assédio, estupro e feminicídio no Brasil e outros lugares do mundo.

 

Poderia o nariz ser considerado um instrumento de poder dos afetos, emoções e memórias?

 

Nesta instalação, o cheiro se acasala com a poesia e nestes ninhos mortíferos encontro vestígios olfativos de vida e afetos. Penetro nas entranhas dos significados da história militar destes objetos cujo passado ainda reverbera no nosso mundo atual de violência, monopólios territoriais, poder econômico, doutrinas fundamentalistas, desmonte e extermínio de culturas, incentivo armamentício.

 

Nestas guaridas, me coloco como interlocutora do tempo e como mulher, me torno cheiro.