Diário de Cheiros:
Teto de Vidro
(2018)
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  "Do início ao fim do percurso da exposição Teto de Vidro, de Josely Carvalho, as obras completam um ciclo de pesquisas estéticas, plásticas, sensoriais e de vivências recentes da artista.

O livro-objeto Estilhaços surgiu de memórias pessoais e de pequenos escritos sobre a imagem de taças quebradas. A partir da interpretação dos textos foram criados pela artista, em parceria com a Givaudan do Brasil, os cheiros Afeto, Ilusão, Persistência, Vazio, Prazer e Ausência.

Das inquietações provocadas pelos estilhaços das taças, outras surgiram quando vidros quebrados ficaram espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro por ocasião das manifestações ocorridas na cidade, em 2013. Alguns fragmentos foram recolhidos por Josely e ganharam lugar na instalação Resiliência, permanecendo como marcas de um tempo recente e ainda atual, não só daqui, mas também de outros lugares, onde os conflitos existem e os movimentos de rua frequentemente são desmobilizados por bombas de dispersão.

 

Das pesquisas da artista sobre o vidro e os estilhaços, e da reflexão sobre seus possíveis significados, tanto pessoais como coletivos, surgiu a experiência no estúdio Urban Glass, no Brooklyn, em Nova York, onde a areia, o calor extremo do fogo e a força impulsionadora do sopro deram forma a esculturas – recompondo os vidros estilhaçados. Da energia deste movimento surgiram as peças em formas ambíguas, que existindo como barreiras transparentes contém e deixam escapar por suas aberturas os cheiros Anóxia, Pimenta, Poeira, Barricada, Lacrimae e Dama da Noite – o elemento feminino. Para a artista, estes cheiros reunidos representam o da Resiliência que, no entanto, não foi criado como os outros porque Josely fez questão de deixá-lo em aberto, pelas infinitas e particulares formas que cada um de nós temos de interpretá-la pelo nariz.

 

O vídeo Memória do vidro, que revela a plasticidade do fogo no processo de fabricação do vidro, completa a instalação.

 

Teto de Vidro é título e síntese da exposição. É coerência. O termo simboliza as barreiras transparentes que a sociedade impõe às mulheres e às minorias. Na mostra, o vidro em sua dualidade, de força e fragilidade, se revela além das formas e o olfato é solicitado, além do sentido do olhar e do tato, proporcionando uma experiência expandida e singular."   

Laura Abreu, curadora

Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, São Paulo, Brasil. (03/03 - 06/05/2018).

Foto: João Caldas