Foto: Pat Kilgore

El Cristiano (44)
Cheiro de Incenso

Fundido no Paraguai para a Guerra de 1865-1870, nele foi utilizado o bronze  dos sinos das igrejas paraguaias, recebendo por isso as inscrições nos munhões: "da religião ao Estado"e
"El Cristiano". Inicialmente equipa o forte Curupaití, também serviu para equipar a principar fortificação do Humaitá, a Bateria Londres, de onde foi arremessado para o rio Paraguai, quando a rendição da fortaleza. 

Apesar das fontes da época, acredita-se que não é um canhão e sim um obuseiro, ou seja, as balas disparadas por ele eram ocas. A peça é muito curta para um canhão. A fundição, as formas e o material do canhão levam a supor que ele não suportaria o disparo de grandes balas sólidas antes disso. A arma de 12 toneladas foi feita do metal dos sinos das igrejas da capital do Paraguai e usada durante dois anos para conter o avanço das tropas brasileiras sobre a cidade de Asunción.

Não existe consenso entre os historiadores sobre as motivações para o ditador Solano López declarar a guerra. Para o pesquisador Moacir Assunção, o paraguaio foi convencido de que o Brasil queria se apossar dos territórios dele e dos uruguaios. "A Guerra do Paraguai é a guerra contra o inimigo errado, ao lado do aliado errado. Essa é a frase de um historiador famoso, que diz a verdade. Acabaram atacando o aliado e ficando ao lado do inimigo de antes (os argentinos)" - diz o pesquisador.

Até hoje o Paraguai clama pela devolução do canhão que o Brasil mantém como troféu de guerra mesmo que algumas fontes afirmem que pela liga incomum de metal proveniente dos sinos, El Cristiano nunca conseguiu disparar bala alguma.

O cheiro do Incenso remete às Igrejas e quanto sua influência alicerça em muito os processos políticos e econômicos da formação dos Estados e no processo de colonização. A partir da história do canhão Cristiano abre-se a discussão do poder social da Igreja e o quanto até nos dias de hoje influencia comportamentos e tradições até mesmo em  nosso país que em teoria é laico, ou seja, não é regido politicamente por nenhuma religião.

Contudo, a nova onda conservadora prova o contrário. Levantando a bandeira da moral e bons costumes da família tradicional brasileira excluí e condena de maneira parcial a todos que não se encaixam nessa definição imposta pelo Estado em vínculo tendencioso com a religião de quem governa.