Cheiro de Peixe
(1984 - 1985)

Cheiro de Peixe, 1985 

oremos, pronuncia um pássaro colossal

vestido de roxo

mastiga dois seios em um redemoinho de desejo

oremos

oremos aos nossos demônios

os demônios que nos desprendem de nossos calabouços

 

cheiro de peixe

antropófago de fantasias

sargaço enrolado em culpa

camadas de reminiscências vagas

oremos

oremos às memórias do nosso crescer

visões de infâncias perdidas

cheiro de peixe

corrimento translúcido

prazer lubrificante

pelágicas cavernas encravadas de ruídos sexuais

retratam estórias de vovozinhas

trançando donzelas com fios de bacalhau

 

pelo corpo de Cristo!, declama o halterofilista

notícias circulam daqueles que foram mortos

mutilados violados esquecidos

logo ali

do outro lado do rio

cheiro de peixe

mea culpa!, grita o pássaro em vôo.

                                                         Josely Carvalho