ABRICÓ DE MACACO

Árvore Bola de Canhão

                           História canhão 18 | 006972

  Este morteiro foi fabricado emergencialmente no Rio Grande
do Sul para ser empregado na Revolução ou Golpe de 1930,
um movimento armado liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Até então, havia um monopólio entre os partidos republicanos dos estados de Minas Gerais
e São Paulo que revezavam os mandatos de presidência.
Foi um período, conhecido também como Política do Café com Leite, que terminou com as tropas revolucionárias tomando
o poder no Rio de Janeiro, capital do país na época. A revolta culminou com um golpe de Estado que depôs o então
presidente da república Washington Luís e impediu a posse
do presidente eleito Júlio Prestes pondo fim ao período da República Velha no Brasil.

 

  As artilharias eram produzidas naquela época em oficinas particulares e públicas sendo o canhão 18, um dos primeiros fabricados no Brasil. O movimento foi liderado por Getúlio Vargas, figura ambígua que mesmo mantendo o país durante
15 anos sob regime autoritário e ditatorial, criou também políticas trabalhistas e teve atitudes populistas. À exemplo disso, em fevereiro de 1932 foi garantido o voto feminino pelo primeiro Código Eleitoral Brasileiro, porém ainda com algumas restrições.  Em 1934, as restrições foram eliminadas e neste mesmo ano,
foi eleita a médica e feminista, Carlota Pereira de Queiroz,
a primeira deputada federal brasileira.

 

  Os avanços da atuação feminina na política foram pequenos desde então. Somente em 2011, o Brasil elegeu a primeira presidente mulher, Dilma Rousseff (2011-2016), porém foi deposta por impeachment. Muitos defendem que este
processo de destituição do cargo da presidente em exercício
foi manipulado, ou seja, uma manobra política de golpe.
Hoje, em 2020, as mulheres ocupam apenas 15% das vagas
na Câmara dos Deputados e 13% no Senado Federal o que exemplifica a falta de representatividade de gênero nos
cargos governamentais.

Curiosidades:

- O morteiro é uma boca de fogo na qual se carrega os projéteis pela parte anterior do tubo (anti-carga), destinada a lançar granadas em tiro curvo
de curto alcance.

- A Política do Café com Leite ganhou esse nome curioso porque na época São Paulo era o maior produtor de café do Brasil e Minas Gerais era
(e ainda é) o maior produtor de leite e seus derivados.

Essa é a história desse canhão e a sua relação
com a flor e o fruto da árvore Abricó de Macaco.

Você já sentiu o cheio dessa árvore?
Se não, conseguiria imaginar?
Você consegue perceber pontes e cheiros
entre você e momentos da História do Brasil?
Pode contar algumas memórias olfativas?

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imaginário coletivo do cheiro

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cheiro: Abricó de Macaco

  O Abricó de Macaco (Couroupita guianensis) é uma árvore tropical, alta, de madeira macia, da família Lecythidaceae e nativa do nordeste da América do Sul.
Ela existe também há pelo menos 3.000 anos em diferentes regiões do mundo. Essas árvores surpreendentes são reverenciadas e podem ser encontradas nos templos de Shiva na Índia e também nos templos budistas no Sri Lanka e na Tailândia. Os hindus a consideram uma árvore divina porque as pétalas das flores se assemelham ao capuz da 'Naja', uma cobra sagrada que protege
o estigma conhecido como 'Shiva lingam'.

 

  A árvore Abricó de Macaco, também conhecida como bola de canhão, cresce até 35 metros de altura e é notável por seus grandes frutos esféricos e amadeirados, que se assemelham a uma bola de canhão enferrujada. Quando o fruto cai, produz um ruído pesado, fétido, perigoso e explosivo. Suas flores são grandes, sensuais e aromáticas. Flores e frutos surgem juntos do tronco da árvore.
Algumas árvores florescem profusamente, sendo possível suportar 1000 flores em um dia. A maioria dos frutos desta espécie é provavelmente o resultado do movimento do pólen de uma árvore para outra, mas experimentos mostram que as plantas autopolinizadas da árvore abricó de macaco também dão frutos. O cheiro destes frutos serve como poderoso propósito evolutivo. Quando cai e
se abre no chão, exala um cheiro pungente semelhante a fruta durian, sinalizando os animais para que se alimentem de sua polpa. Estes espalham as sementes pelas fezes e o círculo da vida continua. O livro, "Encyclopedia of Geography", descreve os frutos da bola de canhão como: "...no estado perfeitamente maduro, excede tudo que é imundo, fedorento e abominável por natureza".

 

  O que a árvore Bola de Canhão, além do seu nome,
tem a ver com o Canhão 18? Para mim, o nome foi intrigante e também a semelhança de seu fruto com a
bola de canhão. Porém, observei outras qualidades que incitaram a minha curiosidade como: 1. o contraste da flor aromática e de seu fruto de odor pestilento; 2. ambos brotam juntos diretamente do tronco da árvore;
3. singularidade de sua polinização; 4. a referência que esse canhão foi fabricado no Brasil a partir de canos de esgoto para a Revolução ou Golpe de 1930, momento
na história brasileira de muitas ambivalências.

 

  Para produzir o cheiro sinteticamente, foi necessário
extraí-lo diretamente do fruto porque este não estava
ainda arquivado no banco de dados da Givaudan do Brasil. Colhemos o fruto nas ruas do Rio de Janeiro e enviamos pessoalmente à São Paulo. Foi usado o
Scent Trek, uma tecnologia desenvolvida pela empresa. Essa metodologia exclusiva possibilita acessarmos aromas da natureza sem causar nenhum dano ao ambiente, já que não é preciso abrir o fruto para que o cheiro seja extraído.

 

  Esse cheiro não é apenas uma representação das memórias do canhão número 18, mas uma metáfora para
o conceito da instalação. Ao invés da descrição do cheiro que desenvolvemos para todos os canhões, aqui, deixamos em aberto para ser sentido, descrito e mantido na sua memória olfativa.